Acolhimento se faz com o coração e a boca
Acolhimento se faz com o coração e a boca
Ela teve um problema sério no fígado. Começou a passar bem mal, a penar de dor e de enjoo. As semanas passavam e os médicos demoravam para diagnosticar precisamente o que ela tinha, saber se era câncer ou não, ou que raio de moléstia seria. Ocorreu então, numa consulta, que o doutor analisava os exames, via as imagens e matutava, quando pediu a ela que lhe desse um minutinho. Disse que ia na sala ao lado ligar para um colega e discutir o seu caso. Ele saiu, mas deixou a porta aberta. Então ela ouviu e estarreceu.
— Fulano? Como vai você? Olha, eu estou aqui com um fígado que…
Um fígado! Ela, toda sensível por conta da saúde, exausta dos padecimentos que a doença impunha há vários dias, fragilizada física e emocionalmente, de repente se viu reduzida a um pedaço de carne. Não teve como controlar o sentimento ruim. "Esse médico não me vê como gente", pensou. "Sou apenas um fígado nessa consulta".
Corte para outro consultório, outra consulta. Agora não era ela, era ele. Um paciente remissivo de câncer, que aguardava o resultado de uma biópsia.
Tudo ia muito bem com ele, estava sem sinal de tumor no organismo há quase cinco anos. Mas, de repente, surgiu um nódulo safado, em local bem perigoso. Toca a investigar. Por vários dias, ele perdeu o sono e mal conseguiu comer, de tão tenso que ficou, à espera do resultado. Sua vida virou de ponta-cabeça. Aí veio o doutor e disse, na lata:
— A biópsia é positiva.
Ele desabou. A cabeça baixou na hora, junto com o astral. Câncer de novo! Todo aquele inferno de volta! Ele começou a praguejar baixinho, desconsolado, quando o doutor percebeu a situação e corrigiu.
— Calma! A biópsia é positiva, mas negativou para câncer. O que você tem é um fungo.
Ele fez uma cara de tanto pasmo, tanta perplexidade, que exigiu um complemento explicativo do médico.
— Olha, uma biópsia é negativa quando ela não consegue identificar nada, quando é inconclusiva. E é positiva quando consegue. No seu caso, ela conseguiu identificar exatamente o que você tem. E não é câncer, felizmente! É uma doença mais simples.
Ele não se conteve.
— Puxa, doutor! Mas não dava para o senhor começar pela segunda parte? Eu escapei do câncer, graças a Deus, mas quase morri do coração agora!
Essas duas cenas ilustram um problema comum no relacionamento entre os médicos e os doentes: a comunicação. Ambos lidam com a saúde, de uma forma muito direta, mas com perspectivas totalmente distintas. A depender de como se comunicam, isso pode ajudar ou complicar o tratamento.
O médico foca tão intensamente na doença, olha tão tecnicamente para ela, que nem sempre enxerga direito que tem um doente atrás dela. Um ser humano, com dúvidas e angústias enormes, que não é obrigado a entender as variantes do dialeto mediquês. O doutor mal tem tempo de enxergar além do que mostram os sintomas e os exames, na verdade, porque logo depois daquele humano à sua frente, já lhe aparece outro, e outro, e outro, e mais outro. Quantas consultas e procedimentos diários tem o médico de um grande hospital, como o A.C.Camargo? Dá para imaginar? Então, não dá para pretender que ele dê a cada doente aquela atenção premium, golden, megaplus que seria ideal. Mas alguma, é indispensável.
O paciente, por sua vez, não vê a doença, ele sente seus efeitos. Sente na carne, na mente, no ânimo. Preocupa-se em saber como levar a vida com ela, viver melhor, não perder capacidades, ter conforto. E, nessa busca, anseia tanto por bons resultados clínicos no seu tratamento como por atenção e carinho nas consultas, exames, internações, curativos, o que tenha de fazer no hospital. O paciente é um carente pela própria condição, um estima-deprimido, um afetodeficiente — para inventar no jargão médico. Daí a importância crucial de uma boa comunicação de quem o atende com ele, e vice-versa.
A palavra mais ouvida nas 18 reuniões realizadas desde 2020 no Conselho Consultivo de Pacientes, não por acaso, foi acolhimento. Em todas as sessões falou-se disso. Da necessidade de todo o pessoal médico abraçar os pacientes, deixar-se sensibilizar pelas angústias deles. Assim como, no sentido inverso, dos pacientes entenderem as circunstâncias em que o pessoal médico trabalha e não esperarem dele mais do que ele pode dar.
Acolhimento se faz com coração aberto e conversa franca. Com sensibilidade e comunicação. A interação médico-paciente, para ser efetiva, tem de ser também afetiva. Quando ela acontece, quando ela se fortalece, um continua sendo o doente e o outro, o que entende de doença. Mas os dois melhoram. Juntos.
Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.
