Radioterapia não deixa ninguém zumbi radioativo
Radioterapia não deixa ninguém zumbi radioativo
"Quando deitei naquela máquina, eu achei que ia ser cremado".
Em 19 anos de trabalho no A.C.Camargo, 11 deles como supervisora de operações de radioterapia, a enfermeira Kátia Cristina Trigo ouviu muitas coisas dos pacientes do hospital. Mas nenhuma frase foi mais chocante, nem expressou melhor a confusão e o mito que envolvem a sua área, do que essa, proferida por um coleguinha oncológico aterrorizado, ao iniciar o tratamento para se livrar do câncer.
Em vez da esperança de cura, renascimento, ele sentiu medo de voltar ao pó. E saiu surpreso da sessão, aliviado, quando experimentou na pele que não era nada disso. Quando entendeu que não estava num filme de ficção científica, sendo atingido por raios letais disparados de discos voadores. Não estava em Hiroshima, virando fumaça com a bomba atômica de 1945. Nem estava em Goiânia, em 1987, envolvido no acidente que contaminou centenas de pessoas com o elemento radioativo Césio 137, por desinformação e descuido de uma delas. Ele estava num dos principais cancer centers da América Latina, passando por um tratamento cuidadoso de radiologia, sob estrito controle e segurança.
Katia sabe que a maioria dos oncológicos chega à radioterapia com imagens assustadoras na cabeça, formadas pelo cinema e o noticiário. Sabe também que, quase sempre, eles chegam depois de cirurgia e quimioterapia, debilitados física e psicologicamente. Por isso mesmo, ela entende que o paciente de radioterapia exige um tratamento especial. Mais cuidadoso, atencioso, personalizado. "O cuidado está num toque, num olhar, em segurar a mão dele, saber o seu nome, ouvir as suas queixas, tranquilizá-lo", ela diz. "Se eu não souber o que a paciente precisa, eu não sirvo para trabalhar nisso".
Essa mentalidade está fortemente arraigada na equipe de 64 profissionais que Katia lidera, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, técnicos de radioterapia e dosimetristas. Eu comprovei esse compromisso com o carinho, o mais profundo acolhimento, quando passei por lá em 2019, enfrentando uma maratona de 45 sessões. Fiz radioterapia na face, uma das mais delicadas, que exige manter o sujeito fixado à mesa dentro de uma máscara rígida de silicone, para que ele não se movimente nem um milímetro durante a irradiação. Foi uma experiência torturante para um claustrofóbico como eu, da moldagem da máscara até o último raio que me partiu. Mas consegui atravessá-la, relaxando progressivamente, mais calmo a cada dia, com o desvelo e o carinho impressionantes das pessoas que me atenderam.
Quem já passou pela radioterapia lembra, quem não passou vai conhecer a Radio Tour, uma visita às instalações do setor, que é a atividade inicial de quem chega lá. Alguém muito simpático vai mostrar a enfermagem trabalhando, os vestiários onde colocamos uma roupinha meio de papel, e as salas onde estão as máquinas, não muito diferentes daquelas mais conhecidas de tomografia ou ressonância magnética. Ali vão explicar como a irradiação atinge exclusivamente a área do corpo delimitada pelos médicos e que a dose é calculada para matar o tumor, não o portador dele. E mais tarde, em algum momento, alguém vai dizer, com franqueza, que a radioterapia deixa algumas sequelas, sim, porque são inevitáveis, mas que tudo é feito para minimizá-las.
Mas o que deve acontecer para que a experiência do paciente seja a melhor possível, a mais efetiva contra o tumor e a mais confortável, no transcurso da radioterapia?
Funciona sim. Funcionou comigo, maravilhosamente, e pode funcionar com qualquer um. "Ao contrário da quimioterapia, onde a pessoa põe um acesso no braço e vê o remédio gotejar dentro dela, a radioterapia é invisível", compara Katia, tentando entender a inquietação com ela. "A pessoa se deita na máquina e não vê, não sente nada". Bom, eu vi faces sorridentes e olhares confiantes ao meu redor. E me senti tão acolhido quanto eu precisava. Há de ser assim com todo mundo que saiba viver esse momento.
Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.
