Especialização faz bem à medicina, mas tem uma que falta
Especialização faz bem à medicina, mas tem uma que falta
Na minha temporada de internação, em 2019, as manhãs eram bem animadas. Mal eu tomava o café e o banho diário, começavam as visitas de inspeção. Vinha a enfermeira-chefe de turno, conferir se tudo estava OK no meu atendimento. Vinham os médicos que me operaram e suas assistentes, para checar como eu me recuperava. Vinham as moças da fisioterapia, me exercitar e fazer andar. Vinham as fonoaudiólogas, me treinar para comer e falar de novo. Vinham a nutricionista e depois o nutrólogo, porque uma coisa é uma coisa, a outra é outra, ainda que o fim seja o mesmo, alimentar. Vez por outra vinha também um psiquiatra, porque a coisa toda, a cirurgia enorme e a recuperação delicada, me piravam um pouquinho.
Era tanta gente para me examinar, todos os dias, que saía um médico ou terapeuta e logo entrava outro. Entrava no meu quarto e no dos coleguinhas de andar, porque os corredores ficavam cheios de aventais brancos, circulando de lá para cá. É claro que eu me senti muito bem atendido e acompanhado, acho que os outros também. Aquela movimentação intensa podia ser incômoda, mas dava muita segurança. Estavam cuidando da gente, era o exército da nossa salvação. Só que tudo aquilo também era, aos olhos de um observador veterano, uma demonstração impressionante do grau de especialização que a medicina atingiu. O que é bom, mas também é ruim.
Sou de uma geração que conheceu o "médico da família". Aquele doutor a quem os pais e as mães recorriam, e ao qual nos levavam, qualquer que fosse a queixa de cada um. Aquele abnegado que nos atendia em casa, tarde da noite, quando a febre estava muito alta ou os sintomas não recomendavam deslocamento. Em geral, era um clínico geral, que conhecia o nosso histórico médico e fazia o diagnóstico no estetoscópio e no tato, esquadrinhando o nosso corpo, conferindo os olhos, a língua e a garganta, batendo um martelinho no joelho, mandando tossir e dizer 33. Pedia exame de sangue e raio X, no máximo, até porque tomografia e ressonância ainda eram ficção científica. Quase sempre, ele mesmo conduzia o tratamento. Só nos enviava a um especialista se a medicação não respondesse.
Hoje, num grande centro urbano, isso é apenas uma recordação nostálgica. Não existe mais esse tipo de profissional "exclusivo", o "nosso médico", o "cura tudo". As pessoas já estão acostumadas a procurar o doutor conforme os sintomas sugerem — e o seu plano de saúde cobre. No posto de saúde ou na emergência do hospital, elas já pedem o especialista que imaginam adequado ao seu caso. O próprio Programa Saúde da Família, que atende a domicílio, tem equipes multiprofissionais. E a especialização médica vai a níveis muito avançados, com 55 especialidades e 61 áreas de atuação, se é que já não surgiu uma nova nos últimos dias. Até o diagnóstico virou uma delas.
O bom da superespecialização é óbvio: os médicos conhecem cada vez mais, bem a fundo, as suas especialidades. Têm recursos de diagnóstico e terapia que seus antecessores sequer sonharam e podem tratar as doenças com um grau de precisão muito alto. No caso do câncer, isso é crucial, assim como é também a abordagem integrada dele, as várias especialidades interagindo para enfrentar os tumores e suas consequências. O que, felizmente, temos de sobra no A.C.Camargo, nosso cancer center.
O ruim é a queixa que os oncológicos apresentam com muita frequência. A queixa que está nas conversas das salas de espera, nos debates do Conselho Consultivo de Pacientes, no coração de muita gente: a de que os médicos focam mais na doença do que no doente. Engalfinham-se com o tumor, mas se envolvem pouco com a vítima dele. Têm um fabuloso olhar técnico, enxergam o núcleo de cada célula, mas demonstram pouca empatia e, muitas vezes, têm dificuldade de comunicação. Não falam, ou falam pouco, ou falam difícil. E raramente falam por gestos, que podem valer por uma terapia inteira para o doente fragilizado: um tapinha no ombro, um aperto de mão, um abraço.
Essa falta de irrigação emocional no tecido médico, essa anestesia da compaixão e da humanidade, estão bem diagnosticadas e as formas de tratamento são intensamente investigadas. O esforço ocorre no sistema de saúde em geral, mas particularmente no A.C.Camargo, onde o tema da humanização da medicina, do acolhimento do paciente, está presente nas reuniões gerenciais, seminários internos e documentos de orientação. Foi levantado em todas as reuniões do Conselho Consultivo ocorridas até agora. Está na hora, portanto, de especializar-se também nele.
O médico de família não vai voltar — nem precisa. Basta que voltem a afetividade, o calor humano, a empatia. O profissional não pode nem precisa ser aquele antigo "médico de cabeceira". Só precisa ter sempre o coração na cabeça.
Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.
