Disciplina também é prazer
Disciplina também é prazer
E então? Como foi? Pode confessar. O doutor disse para pegar leve na comida e nem triscar na cerveja, quanto mais vinho, champanhe ou destilado. Avisou que álcool e tabaco, nunca mais na sua vida, nem em festas de fim de ano. Você pediu exceção nesse período e ele disse não, não e não. Mas você fez de conta que não ouviu, certo? Mandou ver. "Ah, um golinho só não faz mal"... "Dei só uma pitadinha"... Sem contar a comilança absurda, tudo calórico e cheio de açúcar. Confessa: foi ou não foi?
Se você entrou há pouco na oncosfera, vindo do planeta das ilusões, é bem provável que sim. A gente chega sentindo o ambiente, medindo temperatura e pressão nos contatos médicos, achando que pode fazer no câncer o que faz em outras doenças. Vem disposto a obedecer às orientações no geral, mas desobedecer aqui e ali, quando elas parecerem "exagero". Vem pensando que pode roubar no jogo, de vez em quando, porque muito mal não há de fazer.
Mas não é assim não. Quem trata um câncer, muito provavelmente está passando, já passou ou vai passar por radio ou quimioterapia, quando não ambas. Isso muda bastante a condição física de qualquer um. Reduz a imunidade, deixa os tecidos mais sensíveis, atrasa o metabolismo. Enfim, debilita, mesmo que não pareça. Mas logo fica claro. E não melhora com o tempo, infelizmente. Torna-se uma condição permanente.
Foi duro para mim abdicar de dois dos maiores prazeres que eu tinha na vida: a cachacinha, que eu até colecionava, no fim de semana e a pimenta, que comia na fruta ou no óleo, diariamente, no almoço e no jantar. Eu até tentei me rebelar contra a proibição, vez ou outra, mas paguei preço alto. A boca acostumada a arder virava um fogaréu insuportável e o que chegava ao estômago me enjoava na hora. Por que insistir? Então parei de brigar com a realidade e experimentei um prazer que não esperava: a disciplina.
A gente não bebe, fuma e se empanturra exatamente para ter prazer, escapando das exigências da moderação e regramentos? Era o que eu pensava — antes do câncer. Nele e depois dele, vivendo com outros parâmetros fisiológicos, entendi que o maior prazer da vida está no mais básico: o bem estar. Não sentir nenhum desconforto no corpo, ver todas as funções orgânicas acontecendo direito, ter fome e sono, ficar calmo, sentir-se disposto. Essas coisas banais, que a gente só valoriza quando a doença leva. E só recupera com apoio médico, força de vontade e aplicação. Isto é, disciplina.
Disciplina para ser moderado na alimentação e fazer exercícios regularmente. Disciplina para tomar os remédios na hora certa e não esquecer de comprá-los. Disciplina para fazer os exames e consultas de controle no prazo certo, sem atrasar. Disciplina para aceitar o que não é mais possível, sem fazer disso um fim de mundo. Disciplina para trocar os antigos prazeres pela satisfação consigo mesmo, de respeitar o que lhe foi recomendado e de sentir-se bem, ganhando a recompensa prevista.
É o início de um novo ano, tempo de rever procedimentos, fazer planos e estabelecer metas. Então anote aí no caderninho, se já não estiver nele: ter disciplina. Ser responsável consigo mesmo, com sua família, com seus amigos, com todos que ama. Ser responsável com o pessoal médico que o atende e que lhe dá a orientação técnica correta, para que vença o câncer e ele não volte a assombrar. Ser atento e rigoroso em tudo que fizer em 2024, para que em 2025 você esteja saudável, ativo e feliz.
Vamos brindar a isso? Pega lá uma taça de água... Saúde!
Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.
