Um bocado de nutrição para um bom tratamento
Um bocado de nutrição para um bom tratamento
"Você é o que você come" — já te disseram alguma vez ou você leu em algum lugar. É uma frase antiga da História, que teve divulgadores como o francês Jean Anthelme Brillat-Savarin, um dos pais da gastronomia, no Século XVIII, e o filósofo alemão Ludwig Feuerbach, no XIX, que também era chegado na boa mesa. Mas ela voltou há pouco como nome de um documentário da Netflix, que apresenta um estudo com gêmeos idênticos adotando diferentes dietas (vegana e onívora). O filme confirma a frase imemorial. Cada um é cada qual, da boca para dentro. A comida determina muito do que somos, ou do que fazemos com o corpo.
Bom, mas se somos distintos, também temos problemas comuns, quando viramos oncológicos. Nós temos questões com a nutrição e ela tem com a gente, no tratamento do câncer. Se você entrou no A.C.Camargo como paciente, logo descobriu isso ou não vai demorar. O que talvez ainda não saiba, como eu não sabia até agora, são os detalhes dessa relação nutrição-doente. Eu pude aprender um bocado dela, literalmente, numa conversa reveladora com a nutricionista Thais Manfrinato Miola, supervisora de Nutrição Clínica, a área do hospital que dá assistência direta aos pacientes.
Primeiro, uma distinção que me intrigava, quando fiquei internado. Tinha nutrólogo e nutricionista me atendendo e eles vinham me visitar todas as manhãs, no pós-operatório. Não conseguiram me explicar bem a diferença entre eles, ou não entendi, naquela zoeira física, mental e emocional que a gente atravessa nesse período. Agora ficou bem claro. Trocando em miúdos (não os de frango), o nutrólogo (ou a) é um médico que controla a alimentação parental (pela veia) e por sondas (a enteral, via nariz, ou a gastrostomia, no estômago). Avalia a nutrição no conjunto dos aspectos clínicos envolvidos no tratamento. Já a nutricionista (ou o) é uma profissional de saúde que cuida da alimentação normal, a que vai pela boca. Atua na suplementação de nutrientes, orientando dietas equilibradas, para o paciente manter o peso adequado, ter mais disposição e energia, e prevenir doenças.
Na ótica da Nutrição, os maiores riscos para o paciente são a perda de peso e perda de massa muscular. Em geral, estão associadas. Elas debilitam o freguês e podem até interromper o tratamento, se forem excessivas.
Daí, então, os exames que nos pedem. São feitos para ver exatamente o que devemos ingerir. Se o cara é magro ou gordo, o aspecto não interessa muito nessa análise. “Olhando para um paciente, pode parecer que ele está no peso, ou até acima dele. Mas a massa muscular pode ser insuficiente", Thaís explica. "Por isso é necessário conhecer exatamente os nutrientes que faltam ou sobram nele, para montar um plano alimentar individualizado”.
A Nutrição entra em todos os momentos da experiência do câncer. Da prevenção da doença ao seguimento da jornada até a cura, ou cuidados paliativos, se ela não for possível. “O ideal é que a Nutrição entre em campo já no diagnóstico, para evitar que o paciente perca peso antes da cirurgia”, diz Thaís. "Em uma semana de leito hospitalar, o paciente perde em média 1 Kg. Esse quilo levará um mínimo de 12 semanas para ser recuperado". Mas nem sempre a Nutrição é acionada no momento zero, do diagnóstico. O comum é que entre na preparação da cirurgia e na internação. Já na rádio e na quimio, ela entra no começo, porque definir muito precisamente o que é adequado ao paciente naquele momento vai ajudá-lo a suportar bem essas duras terapias, com o mínimo de incômodo e o máximo de resultado.
A nossa atitude nisso tudo é fundamental e, como somos diversos, ela também difere muito. Há pacientes que seguem e os que não seguem a orientação nutricional. Há os encaminhados pelos médicos à Nutrição que não marcam a consulta e os não-encaminhados que marcam. O grupo que mais procura orientação nutricional são as mulheres, pacientes de câncer de mama. Presumo que é porque dão maior atenção ao corpo do que os homens, ao menos os que conheço. Já a turma mais resistente é a minha, a de cabeça e pescoço, que tem de lidar com muitos traumas físicos e psicológicos do tratamento, e rebela-se em ter de lidar ainda com rigores na alimentação. No geral, Thaís diz que a área é muito negligenciada.
Ainda assim, como bons clientes que são do Dr. Google, os pacientes acham que entendem de Nutrição.
As redes sociais complicam o trabalho do nutricionista. Elas circulam muita informação errada e estimulam as pessoas a decidir por si mesmas o que é melhor comer. A gente ouve o leigo dizer bobagens como 'Ah, eu tenho de cortar todo o carboidrato, porque ele vai alimentar o câncer’. Nesse pacote dos equívocos entra o abuso de vitaminas e complementos nutricionais. Muita gente quer substituir a comida por cápsulas. As pessoas querem suplementos vitamínicos e não saem satisfeitas se o nutricionista não prescrever. Mas as vitaminas não garantem boa alimentação. Elas são inclusive muito controladas na quimioterapia. Se tomadas em excesso, podem atrapalhar o tratamento.
Nutricionista não existe para restringir alimentação, mas para orientar. “Alimentação saudável e equilibrada é também comer uma pizza, de vez em quando", diz a especialista. "Tudo deve ser comido, para uma alimentação equilibrada. Na forma, no volume e no tempo certo". O que se deve evitar é o radicalismo de certos tipos de dieta que estão na moda. Como a "Dieta Cetogênica", que é rica em lipídios, moderada em proteínas e pobre em carboidratos; a "Dieta Alcalina", basicamente vegetariana, com legumes e folhas escuras; ou a do "Jejum Intermitente", a alternância de períodos de alimentação e de abstinência. Antes de mergulhar de cabeça nelas, é bom examinar se são mesmo a sua praia.
Para te ajudar na Nutrição, existem 30 nutricionistas atendendo os pacientes do AC Camargo, com 5 residentes se treinando junto. Mais 4 nutricionistas orientando a produção de alimentos, além de 10 técnicos de nutrição na cozinha, 10 cozinheiros e 15 auxiliares de cozinha. E uma legião de 80 copeiros, servindo comida na internação e quimioterapia.
Enfim, coma certo e coma bem. Coma o que você precisa, como for mais adequado e o quanto necessita. E bom apetite, que isso precisamos ter, em todo e qualquer sentido.
Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.
