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A porta que acolhe a nossa diversidade

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A porta que acolhe a nossa diversidade

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A voz do paciente

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A voz do paciente

Coisa que me fascina na espécie humana é a diversidade dos indivíduos. Não é certamente a espécie mais gentil e amigável que a natureza produziu, haja vista os ódios, a violência, as guerras e tanta coisa ruim da sua lavra. Mas a nossa diversidade é positiva e bela. A diversidade de tipos, de cores, de falas, de mentalidades, de culturas, de histórias, de sonhos. É um patrimônio incalculável da Humanidade. Um patrimônio também do A.C.Camargo, onde cerca de 15 mil humanos ganham um RGH (número de prontuário) anualmente e juntam-se a muitos outros que atravessam a jornada do câncer.

A diversidade está à vista em qualquer das unidades, qualquer sala de espera, qualquer saguão. Está nos pacientes, um mostruário de gente vinda de todas as partes do país. Está no corpo médico, repleto de faces e sotaques brasileiros, latinos, africanos. Está nas equipes de apoio técnico e de atendimento, gente de toda São Paulo. E está também, em microcosmo, no grupo de quinze oncológicos em tratamento ou remissivos que integram o Conselho Consultivo de Pacientes e Acompanhantes.

Tomamos posse em fevereiro e demos prova imediata de diversidade. Os coordenadores do nosso trabalho pediram que fizéssemos uma lista inicial do que gostaríamos de discutir lá, para ajudar a resolver problemas e aprimorar práticas do hospital. E o que saiu? Um jorro de multiplicidade. Nada menos de 30 pautas, muitas delas embutindo várias questões, que poderão ser desdobradas em conversas específicas.

Nesse grupo de quinze, já somos pura diversidade de perspectivas e de expectativas. Imagine-se então na multidão de milhares e milhares que constituímos, como pacientes de todas as unidades e de todos os serviços. O A.C.Camargo lida com todos nós, que cobramos atenção ao nosso caso específico e queremos o atendimento mais personalizado possível. Mas ele tem de enfrentar a nossa diversidade enquanto busca unidade, padronização, protocolos de procedimento nos serviços médicos. É um desafio e tanto, que eu reconheço. Vejo acontecer o trabalho para dar eficiência ao trabalho médico e mais acolhimento, mais humanização em todas as interações com os pacientes. Essa gente tão diferente que somos.

O nosso denominador comum, óbvio, é a esperança de curar o câncer. Voltar à vida normal, livre da ameaça. Sair do cotidiano de consultas, exames e procedimentos intensos, ou regulares. É por isso que todos nós convergimos, certamente, numa questão pequena, mas crucial. Todos queremos que as portas de saída da Unidade Antônio Prudente sempre se abram, quando jogarmos o crachá nelas... Que não travem, obrigando um atendente a abrir para nós. A chance de isso acontecer é sempre de 50%, sim ou não. Eita portinhas embaçadas!

Eu já acho graça nessa peculiar roleta, que virou até uma coisa afetiva para mim, um jogo divertido. Muitas vezes vi a manutenção das portas, já falamos delas no Conselho, algo está impedindo por ora a solução do problema. Mas vão resolver, tenho certeza. Resolveram outros bem maiores, chegará a vez desse.

Eu brinco com as portas, quando não reclamo, mas na última vez que uma delas travou para mim foi diferente. Me ocorreu algo que eu não havia pensado. O bloqueio é um problema técnico, claro, mas é também um símbolo, uma metáfora da nossa relação com o hospital. Pense se não é bem isso.

Nós tratamos o câncer para, um dia, cruzar definitivamente aquelas portas e não mais voltar, se for essa a nossa sorte. Mas a nossa travessia da doença antes desse dia, a convivência de meses ou anos com o pessoal médico, as pessoas que conhecemos e os amigos que fazemos, o que aprendemos sobre a vida e sobre nós mesmos na dura jornada, a imensa diversidade de experiências, isso nós queremos reter. Porque vale a pena reter. Porque é saldo de vida.

A porta do hospital é uma cancela de amor. Abre-se de acolhimento e esperança ao nosso coração aflito, quando chegamos. Retém o coração aliviado por um segundinho, quando saímos. Para nos lembrar do conhecimento diverso que adquirimos, e da carga de afetos valiosos que acumulamos ali. Deixa ela assim que está bom.
 

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.