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Residentes, os Robins dos nossos Batmans

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Residentes, os Robins dos nossos Batmans

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A voz do paciente

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A voz do paciente

Vamos falar sobre os Residentes? Ou médicos Assistentes, Auxiliares? Eu sei que você, paciente como eu, tem receios em relação a eles e talvez até restrições. Já ouvi muito sobre os jovens doutores e doutoras, em conversas que testemunhei ou participei em salas de espera e corredores de tratamento. Eu também fazia parte do time "prevenido", digamos assim. Mas os quase cinco anos de A.C.Camargo, intensos como sabemos que eles são, me deram bastante tempo para refletir sobre esse assunto e mudar de opinião.

O paciente tem prevenção com o residente, de modo geral, porque ele é jovem. Presume-se que o verdadeiro conhecimento médico é o da experiência, aquele que o profissional testou na prática o que aprendeu nos estudos, na ciência. Aquilo que ele sabe se funciona ou não, quando funciona e como, sabe porque viu. OK, isso tem um valor enorme, inclusive de mercado, de valor/hora do profissional. É por isso que, no A.C.Camargo e em toda parte, os médicos experimentados são os Titulares e ensinam  o que sabem aos Auxiliares. Fazem junto com eles, transmitem a sua prática.

Mas os Residentes não são uns manés que alguns de nós parecem supor. Nem são crianças. São jovens na faixa dos 25 anos, com seis anos de formação universitária e prática em hospital, quando chegam para a especialização em Oncologia, que provavelmente definirá o seu rumo de carreira. Têm a capacitação e a maturidade esperados na sua faixa etária. E muita energia, muita vontade de conhecer e de realizar.

Eu era exatamente assim aos 25 anos. Já havia passado quatro anos como redator publicitário e tinha dois como repórter de televisão. Era focado na carreira, queria saber tudo da Comunicação, fazer de tudo, deixar minha marca nela. Trabalhava duro, estudava sempre, convivia com os colegas, refletia, debatia. Três anos depois, eu tinha as primeiras responsabilidades de chefia, havia deslanchado. Cinco anos depois era professor, ensinava. Se aconteceu comigo, numa área muito menos complexa que a Medicina, por que não aconteceria com os Residentes? Desconfiar deles seria desvalorizar o jovem que eu fui e que orgulha o velho que sou.

O A.C.Camargo tem hoje cerca de 230 Médicos Auxiliares. Como é também uma instituição de ensino, os Titulares têm a missão de treiná-los e formam equipes em torno de sua especialidade. Num hospital que recebe 15 mil novos pacientes todos os anos e também trata os que chegaram nos anos anteriores, como eu e você, dá para ter uma ideia do número de prontuários que cada Titular pilota. Como ele daria conta da maratona, sem os Auxiliares no seu apoio? Eles são parte do Titular, uma extensão do trabalho dele. São seus olhos, ouvidos e braços adicionais, para ajudá-lo a medicar melhor.

Isso explica uma coisa meio chata, que é também meio inevitável: aquele negócio da consulta começar com o Residente e depois vir o Titular, sempre com pressa, às vezes só para uma passadinha e uma conversa sumária. Tem outro freguês na fila, ele precisa chamar a senha seguinte à nossa. E a outra, a outra, a outra. A gente acaba conversando mais com o Auxiliar do que com o Titular, sobretudo quando ele atua em modo mute. Quando é de poucas palavras, tem pouca paciência para conversa técnica com leigos especulativos, ansiosos ou sem noção mesmo, como somos algumas vezes.

É aí que está o grande valor do Residente. Ele é o médico que mais conversa. O médico que mais ouve o paciente e mais explica as coisas a ele. O médico que nos dá informações importantes, para pautar as perguntas que vamos fazer ao Titular e que devem ser bem objetivas, para não tomar mais tempo do que poderiam tomar, dele e de nós mesmos.

Tive muito carinho e apoio de Residentes nesses anos de hospital, como comentei aqui outro dia. Continuo tendo deles muita atenção e vejo neles a mesma coisa: atenção ao trabalho, aplicação, um desejo que conhecer bem o nosso caso para discuti-lo com o Titular, e compartilhar as decisões de tratamento.

Enfim, é isso. Dupla dinâmica: Titular e Assistente. Dupla vantagem nossa. Os dois trabalhando juntos, para o melhor da nossa saúde. Futuros residentes em nosso coração, com reconhecimento e gratidão pelo bem que nos façam.

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.