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O coração equilibrado, no balanço das emoções

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O coração equilibrado, no balanço das emoções

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A voz do paciente

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A voz do paciente

Estava descendo a escada de vidro outro dia, no prédio da Antônio Prudente, e vi o moleque lá embaixo, no saguão da lanchonete. Tinha uns 4 ou 5 anos, era miúdo, magrinho, pálido e estava carequinha, a cabeça pelada pela quimioterapia. Na hora, eu me lembrei do Pinduca, um famoso menino careca dos quadrinhos da minha infância, aliás, de infâncias bem anteriores, porque o personagem foi criado em 1932. As figuras dos dois meninos eram quase iguais. A diferença é que o Pinduca sempre foi saudável e o carequinha no saguão tratava um câncer. Bateu forte o coração...

Eu fui tomado por um mix de sentimentos intensos, naquela visão. Bateu tristeza, angústia, compaixão, vontade de proteger, tudo junto e misturado. E bateu muito forte. Eu me comovi, os olhos aguaram, a pressão subiu. A Oncologia Infantil fica na unidade Tamandaré e não é comum a gente ver pacientes mirins na Prudente. Quando eles aparecem, eu nunca fico indiferente. O padecimento deles, o mínimo desconforto que seja, sempre me toca mais do que o dos adultos, que não é pouco. Mais do que o meu próprio, que não é exatamente pequeno. Criança tem esse poder, não? De mexer no que existe de mais humano, no fundo da nossa couraça.

O carequinha foi uma emoção intensa, mas fugaz. Logo ele foi embora com a mãe, não o vi mais. Mas há outras duas crianças que enfrentam neste momento o desafio do câncer, em escala inimaginavelmente alta, e elas estão bem perto de mim. Estão dentro do meu coração, para ser preciso. São netas de amigos muito queridos e ambas têm tumores gravíssimos em lugar muito sério: o cérebro. Há meses, a jornada oncológica delas é minha também. Eu penso, vibro e torço demais pelas duas.

Ela está com 9 anos de idade e tem um glioma lateral enraizado. Ele está com 5 e sofre com um neuroblastoma estágio 4. O tumor dela não dá para operar. Ele fez há pouco um transplante de medula. Ela estava tomando remédios experimentais, mas não resultaram, e vai voltar para a radioterapia. A medula nova dele está funcionando bem e logo começa uma medicação poderosa. Há muita apreensão no lado dela e esperança no dele. E o meu pobre coração é uma bolinha de pingue-pongue entre os dois.

Estou contando tudo isso porque, provavelmente, você que me lê também conhece casos de crianças com câncer, ou também viu alguma delas no A.C.Camargo. Você talvez também tenha alguma história com uma delas. Ou talvez enfrente problemas graves em seu próprio corpo. Se for assim, você comunga comigo esse redemoinho ou mesmo ciclone de emoções que o câncer nos desperta. Porque se há uma coisa que a doença faz pela gente, para o bem e para o mal, é nos deixar à flor da pele. Muito mais à flor da pele que o beijo de novela da canção do Zeca Baleiro. Mas, o que tem de bem e de mal nisso?

O mal pode ser o dano cardíaco ou psicológico que um coração beijado de emoções venha a provocar. Muita sensibilidade, muita comoção, muito tum-tum-tum no peito arriscam estressar a gente além de um limite seguro. O coração pode entrar em pane e a cachola também. Convém, então, maneirar, pegar leve, não se preocupar além do razoável, quando lidarmos com todas as nossas emoções. Seja as geradas pelos nossos problemas, seja as vindas da compaixão pelo próximo.

Já o bem é a sensibilização. É tirar a cabeça do controle absoluto das coisas, que pode produzir frieza, e deixar que os sentimentos aflorem livres, sem repressão. É comover-se com a própria condição difícil e com a dos outros, chorar para desabafar se for o caso. Deixar sangrar, enfim. Não o líquido vermelho que vai nas veias, mas aquele fel que dá nó na garganta. Aquilo que amarga. Trocar isso por uma corrente emocional de voltagem saudável.

Entre o bem e o mal vivemos todos, nesta época confusa como em todas as outras. Entre o dano e o benefício temos de administrar a nossa experiência emocional do câncer. Façamos, então, como recomenda o Ministério da Saúde: bebamos disso com moderação. Bebamos o suco dos sentimentos com sabedoria, na dose certa, para o prazer de viver e a esperança de um lindo futuro a todas as crianças.

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.