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O banco que investe em você

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O banco que investe em você

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Foto do Gabriel Priolli, colunista da Voz do Paciente

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Foto do Gabriel Priolli, colunista da Voz do Paciente

Eu sei, entendo perfeitamente. Também aconteceu comigo. Quem lê sobre a nova terapia celular de combate ao câncer, como eu fiz para escrever aqui sobre o assunto, não consegue reprimir o sentimento. Ou o pecado, se a pessoa é religiosa. A gente é tomado por uma inveja danada dos oncoleguinhas de Hemato, a turma da leucemia e doenças do sangue. Uma inveja tamanho grande mesmo. Porque só eles, por enquanto, são beneficiários dessa tecnologia revolucionária, que pode curar o câncer com duas picadas na veia: uma para extrair do sangue as células chamadas CAR-T, outra para devolvê-las ao corpo, depois de modificadas em laboratório para produzir anticorpos. Quando já foram convertidas em guerreiras implacáveis contra as células cancerígenas.

Sim, invejar não é uma virtude, todos sabemos. A impaciência também não. Enquanto aguardamos que a terapia celular chegue a todos os tipos de câncer, o que há de acontecer num glorioso dia de um futuro próximo, vamos tirar da cabeça qualquer ideia besta que possa atravessá-la, da Hematologia como privilégio de alguns. Porque, se há uma área de alcance universal na medicina, é essa.

Todo e qualquer paciente, oncológico ou não, pode precisar de sangue quando encarar uma cirurgia. Se for uma grande, como a minha maxilectomia seguida de reconstrução facial, vai precisar na certa. Idem, se o freguês chegar acidentado, com ferida aberta. Nesse momento, tudo que se pode querer não são as células CAR-T para injetar na veia. É que haja sangue mesmo. O bom e velho sangue, com os vários elementos que existem nele e cumprem papéis diferentes no nosso corpo.

A doutora Marta Maria Moreira Lemos é coordenadora médica do Serviço de Hemoterapia e Terapia Celular do A.C.Camargo. Ela entende tudo do que o sangue contém e do que o paciente pode precisar dele, no tratamento oncológico. Comanda o Banco de Sangue do hospital, com a missão de suprir as necessidades de todos os Centros de Referência, mais a Emergência. E chefia as equipes de Hematologia que estão presentes 24 horas por dia em todas as unidades, prontas para atender rapidamente os casos mais graves que se apresentam, e que são ao menos um, a cada mês. "Às vezes, chega paciente sangrando na Emergência, ou alguma operação produz muito sangramento", ela diz. "Se a gente não entrar logo em ação, a pessoa corre risco de vida".

Não há transfusão que salve, obviamente, se não houver sangue à disposição. Por isso mesmo, a chave do trabalho é a boa organização do banco, que começa na coleta. A lei define critérios para a doação de sangue e a equipe médica avalia quem está apto, a partir desses critérios e das características do hospital. No A.C.Camargo, o sangue é coletado exclusivamente para uso interno. Como é hospital especializado em câncer, isso impõe o máximo rigor na coleta.

Dra. Marta Maria Moreira Lemos, coordenadora médica do Serviço de Hemoterapia e Terapia Celular
Avaliamos quem pode doar de uma forma mais rigorosa que os hospitais gerais, por razões de segurança do próprio doador. Ele pode não ter condições clínicas de doar. O paciente oncológico corre um risco muito maior, se receber sangue que esteja contaminado
Dra. Marta Maria Moreira Lemos, coordenadora médica do Serviço de Hemoterapia e Terapia Celular

A doação de sangue é feita nas instalações da rua Castro Alves. Numa coleta convencional são retirados 450 mililitros do doador, que enchem a chamada "bolsa de sangue total". No laboratório da Hematologia, que fica no prédio da Antônio Prudente, o sangue é separado nas suas partes constituintes, em especial quatro delas: 

  • Hemácias, ou glóbulos vermelhos, essenciais para os pacientes anêmicos; 
  • Plasma, que circula por todo o organismo e leva nutrientes às células; 
  • Plaquetas, produzidas na medula espinhal e componente mais necessário no hospital, porque elas são importantes no processo de coagulação;
  • Crioprecipitados, usados em necessidades específicas de coagulação.

Os pacientes podem precisar de Plaquetas por várias razões. Porque têm leucemia e a medula foi inibida pela doença. Porque a quimioterapia pode afetar a medula. Porque fazem cirurgias que requerem muito sangue. Ou porque podem ter intercorrências que também exigem, como o sangramento do intestino. Para atender essas necessidades, é preciso um bom estoque do líquido, porque o volume de plaquetas coletado na "bolsa de sangue total" é pequeno, em relação aos outros componentes. Numa transfusão, um único paciente pode consumir as plaquetas doadas por sete pessoas.

Para otimizar o estoque de Plaquetas, a coleta é feita por aférese. Nesse sistema, o sangue extraído do doador é direcionado para uma máquina que realiza o processo de aférese, ou seja, a separação dos componentes. Ela faz isso enquanto a pessoa está doando. Recebe o sangue, separa os componentes e joga cada um deles em bolsas específicas, pulando a etapa de laboratório da coleta convencional. Acelera a produção e tem um ganho de eficiência. A coleta de aférese leva de 60 a 90 minutos e consegue obter um volume de plaquetas doze vezes maior que a comum.

O desafio de um Banco de Sangue é manter a coleta muito bem ajustada à demanda do hospital, de modo que sempre haja reservas, em todas as circunstâncias. Nos períodos em que são poucas as cirurgias ou quando muitas são feitas ao mesmo tempo. Outra dificuldade é a preservação do material coletado. As plaquetas, por exemplo, só duram cinco dias depois de extraídas. Se não forem usadas nesse período, vão para o lixo.

"Eu tenho de controlar muito bem a minha lista de doadores e o que temos em estoque, para evitar desperdício. Sangue é um material muito rico para ser jogado fora", diz a Dra. Marta. Para o controle da lista, favorece o fato do A.C.Camargo ser um cancer center. Como todos trabalham de forma integrada, a Hematologia tem acesso regular a todas as unidades e pode dimensionar o que elas precisam. Nos mínimos detalhes, como se vê pela chefe da área: "Eu conheço hoje todos os pacientes que tomam sangue regularmente no hospital".

Na balança da Hematologia do A.C.Camargo, o equilíbrio do Banco de Sangue se mantém com 1.000 doadores mensais, em média, para uma demanda também média de 800 pacientes. Portanto, o banco tem reservas que giram em torno de 450 litros de sangue. Para garantir o abastecimento regular, ele tem o apoio do Marketing em campanhas periódicas de convocação de doadores, que, às vezes, podem pedir algum tipo específico de sangue, que esteja com o estoque mais reduzido.

Fisgado o doador, a tarefa é mantê-lo como um colaborador regular. "Os doadores da aférese são quase todos regulares", conta a Dra. Marta. Mas doar sangue não é algo para fazer toda hora, porque a pessoa corre o risco de ter anemia. Pelos padrões estabelecidos, homens e mulheres têm limites diferentes para essa atividade, conforme o seu organismo. Os homens podem doar a cada dois meses, mas no máximo quatro vezes no ano. Já as mulheres podem doar a cada três meses, no máximo três vezes no ano.

O paciente também não está livre de riscos na transfusão. Há riscos imediatos, que surgem em 24 horas, e riscos tardios, quando os sintomas aparecem depois desse período. Entre os imediatos, quando acontecem, o mais comum são as alergias. A pessoa pode ter uma alergia por simplesmente estar recebendo um material orgânico distinto do seu. Um cuidado necessário na transfusão é o do volume de sangue injetado no paciente. Ele tem de ser bem dosado, porque o doente também recebe soro e medicamentos por via venosa e há um limite para lançar tudo isso em sua corrente sanguínea.

Então, você já sabe: temos sangue em grande quantidade no A.C.Camargo, repleto de componentes devidamente separados na sua respectiva bolsa, para irrigar as nossas veias durante as transfusões, qualquer que seja a razão que as necessite. Não é nessa hora que entra no corpo uma terapia celular promissora, mas é nela que ele se abastece do "combustível vermelho", necessário para nos manter vivos, ou nos salvar. Missão tão importante quanto.  

Doemos, pois, todos os que podem fazer isso. Incentivemos outros a doar. O Banco de Sangue é o melhor do mercado. Não cobra juros e o cliente investe em si mesmo, com ótimo retorno.

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.