Pesquisador do A.C.Camargo avalia papel de medicamento em carcinomas de cabeça e pescoço
Pesquisador do A.C.Camargo avalia papel de medicamento em carcinomas de cabeça e pescoço
Publicado na conceituada JAMA Oncology, estudo comparou 617 pacientes tratados com afatinibe e placebo
Pacientes diagnosticados com carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço (HNSCC) de cavidade oral, hipofaringe, laringe e orofaringe foram avaliados em um estudo publicado na revista científica JAMA Oncology. Intitulado LUX-Head & Neck 2, o trabalho contou com a participação de Ulisses Ribaldo Nicolau, oncologista clínico do A.C.Camargo Cancer Center.
O principal ponto analisado na pesquisa foi a sobrevida livre de doença. Em outras palavras, levou-se em conta se a medicação em questão (afatinibe) seria capaz de reduzir o número de pacientes que sofre com recidiva do câncer.
Como funcionou
Seiscentos e dezessete pacientes foram randomizados para receber terapia adjuvante com afatinibe (40mg/dia) ou placebo. Tratava-se de pessoas com a doença localmente avançada, de risco alto ou intermediário, que se submeteram à quimiorradioterapia definitiva (com ou sem quimioterapia de indução). Era permitida a ressecção cirúrgica de doença residual após a quimiorradioterapia – 41 pacientes necessitaram de operação.
Após um acompanhamento médio de 22 meses, 26% dos pacientes que receberam afatinibe apresentaram recidiva da neoplasia; no grupo do placebo, 25% dos pacientes foram acometidos com o retorno da neoplasia. Esses pacientes que receberam afatinibe também apresentaram mais efeitos colaterais que os tratados com placebo (96% versus 55%) – os mais comuns são diarreia, rash/acne e estomatite.
Conclusão do estudo: o afatinibe falhou em reduzir as chances de recidiva de carcinoma de cabeça e pescoço, portanto não deve ser usado para essa condição.
Relevância do trabalho
A cada ano, mais de 830 mil indivíduos são diagnosticados com carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço (HNSCC) no mundo todo. Nesse período, a média de mortes é de mais de 430 mil casos.
Dados do INCA apontam que no Brasil, em 2018, houve aproximadamente 22 mil novos casos de neoplasias de boca e laringe. O HNSCC representa 90% de todos os cânceres de boca e laringe, podendo ser detectado em vários sítios anatômicos: cavidade oral, lábios, laringe, nasofaringe, orofaringe e hipofaringe.
Aproximadamente 75% dos HNSCC estão associados ao uso de tabaco e álcool; uma minoria dos HNSCC é causada pela infecção pelo papilomavírus humano (HPV).
Nos Estados Unidos, o declínio do uso de cigarros tem sido associado a uma diminuição na incidência de HNSCC, com exceção do carcinoma epidermoide da orofaringe relacionado ao HPV, que vem apresentando uma incidência crescente e acelerada. Essa infecção pelo HPV tem um papel estabelecido como causador do HNSCC, principalmente na orofaringe.
EGFR e seu papel
O EGFR – uma proteína receptora presente na membrana das células tumorais – é superexpresso em até 90% dos carcinomas de células escamosas de cabeça e pescoço (HNSCC). Altos níveis dessa proteína estão correlacionados a um pior prognóstico. Aí entra o afatinibe, que é uma medicação inibidora de tirosina quinase, proteína que bloqueia a transmissão da sinalização celular gerada por receptores da família EGFR.
Em estudos prévios, o afatinibe se mostrou bastante eficaz contra tumores de pulmão EGFR mutado. Em tumores de cólon avançados, a utilização de anticorpos contra o EGFR (por exemplo, cetuximabe e panitumumabe) também melhoraram os desfechos.
Em pacientes com HNSCC recorrente e/ou metastático, a adição de cetuximabe à quimioterapia de primeira linha melhora as taxas de resposta, de sobrevida livre de progressão (SLP) e de sobrevida global (SG) – SG de10,1 meses versus 7,4 meses para os que não associaram o cetuximabe.
Nos indivíduos com HNSCC loco regional avançada, o cetuximabe associado à radioterapia melhora a SG em comparação à radioterapia isolada (49 meses versus 29,3 meses).
Já em pacientes com HNSCC recidivado ou metastático, que já haviam progredido a terapias à base de platina, o afatinibe mostrou benefício em SLP quando comparado à quimioterapia metotrexate (2,6 meses versus 1,7 meses).
Em suma, embora o bloqueio de EGFR tenha uma forte fundamentação científica, esses resultados não se traduziram no cenário adjuvante com o uso de afatinibe em pacientes portadores de HNSCC.
