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Países discutem melhor estratégia diante de custos crescentes do tratamento do câncer

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Países discutem melhor estratégia diante de custos crescentes do tratamento do câncer

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Sessão educacional mostra que mesmo países ricos estão sendo mais cautelosos em adotar inovações, aguardando para verificar o benefício real de novas drogas e tecnologias.

Quando um paciente recebe o diagnóstico de câncer, ele quer ser tratado com o que há de mais novo e eficiente. O problema é que as novas drogas e tecnologias estão chegando ao mercado a custos astronômicos, que impactam até os sistemas de saúde dos países ricos, opondo, de um lado, o indivíduo, que quer o melhor tratamento, e, do outro, os governos e sociedades, que têm recursos limitados para oferecê-lo a todos.

Esse dilema entre o desejo individual e a necessidade coletiva foi tema do curso The Economics of Cancer Care (A economia do tratamento do câncer) e do curso What Can We Learn from International Experience (O que podemos aprender com a experiência internacional), que avaliou as diferentes formas como os países enfrentam a questão.

 

Medicamentos oncológicos

Para os medicamentos lançados para a oncologia nos últimos 5 anos, os estudos mostram uma falta de correlação entre o custo do medicamento e a magnitude do benefício aos pacientes. Isso significa que uma droga muito cara pode ter um benefício muito pequeno e uma droga mais barata pode ter um benefício grande.

Em 2016, os medicamentos oncológicos representaram entre 1% e 2,5% dos recursos totais investidos na saúde e entre 8% e 18% do custo total de remédios usados em países como Estados Unidos, Japão, França, Inglaterra, Canadá, Dinamarca, Alemanha e Holanda – uma alta considerável se comparada com os índices de 5% a 12% registrados nesses mesmos países no período entre 2006 e 2011.

Países como França e Japão conseguem ficar abaixo desses índices porque adotam uma política diferenciada de seleção das novas drogas e tecnologias que serão oferecidas à população, enquanto Estados Unidos, Austrália e Suíça superam esse índices.

Cerca de 95% dos novos medicamentos oncológicos lançados entre 2011 e 2015 já estão disponíveis para comercialização nos Estados Unidos, um índice que cai para 25% na Coreia do Sul, revelando as diferenças na velocidade da adoção de novos medicamentos entre as diferentes nações. Nos Estados Unidos, 27% dos medicamentos que iniciaram a comercialização nos últimos 5 anos eram para casos oncológicos, enquanto esse índice no Canadá era apenas 4%.

imunoterapia, um exemplo de medicamento de alto custo, tem sido adotada em ritmo diferente nos diversos países e há uma corrida dos fabricantes de biossimillares para conquistar uma parte desse mercado e apoiar a sustentabilidade econômica do sistema.

 

Custos do tratamento

Segundo o palestrante Richard Sullivan, do King's Health Partners Cancer Center, a Europa demora mais para adotar novas tecnologias, se comparada aos Estados Unidos. O custo para tratar um paciente de câncer de próstata, ou de mama, ou colorretal, pode variar em mais de 50% de país para país – revelando diferenças de protocolos e eficiência –, que fica difícil entender qual seria a mais sustentável em todas essas nações.

O Dr. Jeffrey Hoch, do Departamento de Saúde Pública da Universidade da Califórnia e membro do Conselho de Adoção de Novas Drogas no Canadá, explicou que, após o lançamento de uma nova droga, são necessários dois anos para que se avalie seu verdadeiro benefício no mundo real, com maior oportunidade de conhecer os efeitos colaterais e os custos físicos e financeiros associados a eles. Afinal, esse é um cenário bem diferente daquele em que são realizados os testes clínicos.

Por exemplo, 71% das novas drogas para câncer de mama falharam em oferecer um ganho substancial de sobrevida no mundo real. No Canadá, a adoção de novas drogas e tecnologias envolve discussões profundas e transparentes, com a participação de oncologistas, economistas, representantes dos pacientes e farmacêuticos, entre outros, e se assenta sobre quatro pilares: o benefício real para os pacientes, o ganho de sobrevida em relação à tecnologia anterior, os custos e a capacidade de operação da nova tecnologia. Este é um momento em que os países demonstram preocupação no desenvolvimento de ferramentas de análise do custo-benefício para julgar quando adotar essas novas drogas.

De acordo com o Dr. Vitor Piana, nosso Diretor Médico, e que acompanhou a sessão, o Brasil ainda não compartilha esse tipo de informação com a comunidade internacional e ainda não entrou nesse debate. "Fingimos que o problema não nos atinge e, com isso cresce a judicialização, com pacientes buscando ao nível individual o que há de mais recente na oncologia, antes mesmo de sabermos se há um benefício real num medicamento, em que subgrupo de pacientes ele está maximizado e se o nosso sistema suporta custeá-lo. Não há como fugir dessa discussão em um país com recursos tão escassos para a saúde como o nosso", afirma.