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Na imunidade baixa, não dê milho ao azar

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Na imunidade baixa, não dê milho ao azar

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A voz do paciente

A voz do paciente

Um belo dia, ou nem tanto, ele acordou e, ao escovar os dentes, sentiu que algo lhe escorria pelo nariz. Sinusítico crônico desde puberdade, achou que era um pouco de secreção líquida vindo abaixo. Secou e não deu nenhuma importância a ela. Mas logo depois, ao tomar o café da manhã, quem escorreu pelo nariz foi o próprio. Pingou pretinho na toalha e deixou claro que os líquidos da boca estavam vazando pelas narinas.

Ele tem metade do céu da boca e da face reconstituídos por enxertos, desde que o câncer exigiu a extração da sua maxila direita. O revestimento de tecido que agora completa a sua cavidade bucal — dito "retalho", em mediquês — havia furado. Exatamente onde? No mesmo lugar onde residia e de onde foi despejado o inquilino mais indesejado de todos. Seria, então, o velho carcinoma de volta? A temida recidiva? Foi ele que abriu o buraco?

Em busca de resposta, ele correu ao hospital e recomeçou a maratona que todos aqui conhecem, ou vão conhecer: consultas, exames, espera, tensão, angústia, medo e enfim… o diagnóstico. Não tinha nenhum câncer na fístula da boca. Mas, "lamentamos informar, tem um nódulo no pulmão". Novas consultas, exames, espera, tensão, angústia, medo e finalmente… não tinha câncer no nódulo. Tinha criptococose, a "doença do pombo". Um fungo que se desenvolve nas fezes daquela ave, vira pó quando elas secam e fica em suspensão no ar, podendo ser aspirado até algum pulmão desafortunado. 

Mas, por que logo aquele pulmão, logo o dele? Porque, como todo mundo que passou por radio e quimioterapia, ele é imunodeprimido. Tem baixa imunidade, o organismo enfraquecido. Tende a pegar mais fácil, ou mais forte, as doenças que os imunocompetentes não pegam. Ainda mais porque, além de debilitado por quimio e rádio, ele também foi atacado pela covid. O pobre pulmãozinho do cara era e é, sozinho, um grupo de risco.

Bom, esse cara sou eu. Ainda estou aprendendo a lidar com o "pombardeio" que me atingiu os alvéolos, mas uma coisa eu já sabia e agora estou mais certo do que nunca: o imunodeprimido não pode dar moleza ao azar. Tem de se proteger o máximo possível, para não expor as suas limitadas defesas orgânicas aos atacantes biológicos, sempre ansiosos por derrubá-las. Sobretudo quando vive em ambiente urbano com ar poluído, como é o desta trepidante e ofegante megalópole.

Proteger-se significa comer direito, fazer exercício, não fumar, não beber, todo aquele combo que os médicos não cansam de recomendar. Significa também observar as regras que aprendemos com a covid — evitar aglomerações, usar máscara, lavar constantemente as mãos —, porque elas valem duplamente para os imunodeprimidos. Mais até. Portanto, se já fazemos quando estamos no hospital, por que não usar máscara também no transporte coletivo? Em qualquer ambiente, fechado ou aberto, que tenha muita gente? Na feira e no supermercado? Por que não usar o álcool em gel, nos locais onde ele é disponível? Por que não lavar as mãos, toda vez que voltar da rua? 

OK, a pandemia foi um inferno e tudo o que queremos é voltar à normalidade. Se as medidas protetivas da pandemia foram relaxadas, vamos relaxar também e retomar a nossa vida como era antes — é o que muitos pensam.
 

A normalidade dos imunodeprimidos é outra. É a da atenção permanente, do autocuidado, da autoproteção. Isso não impede que um fungo escape e pegue a gente, claro, mas convém não facilitar. Cada qual vive a vida que a saúde lhe permite. Vive melhor quando não dá milho ao pombo da imprevidência.

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.