Navegar é preciso. E nós somos o barco.
Navegar é preciso. E nós somos o barco.
Você ouviu na escola, provavelmente numa aula de literatura, e encucou como eu, na primeira vez que ouvi. "Navegar é preciso, viver não é preciso", disse o poeta português Fernando Pessoa, um dos gênios da nossa língua. Mas que raios, ó pá, quer dizer o gajo? — pensei eu e pensastes tu. Navegar é preciso, OK, até dá para entender, sendo o lusitano um povo do mar, que construiu muito mais riqueza desbravando oceanos, corajosamente, do que ralando em seu pequeno território. Mas viver?!? Não é preciso? Como assim?
A minha paciente mestra de português Vilvanita Cardoso, a mulher que me fez jornalista pelo tanto que incentivou a escrever, resolveu essa questão facilmente para mim. Explicou que o adjetivo preciso, nessa frase, não tem o sentido de necessário, obrigatório, mas de certo, seguro, confiável. E não há como negar que navegar e viver são justamente isso: incerteza, circunstância, sorte diante do imponderável.
A frase intrigante do Pessoa me veio logo à cabeça quando ouvi o termo "navegação" aplicado em contexto médico. Foi aqui no A.C.Camargo, numa conversa sobre o tumor board e os setores que participam dele. Fiquei sabendo que a Enfermagem tem um grupo voltado à "navegação de pacientes", algo bastante curioso e, claro, fui atrás de saber do que se trata. Conversei com a Larissa de Melo Kuil, coordenadora de Navegação e Seguimento, para entender se, por aqui, o preciso navegar é necessário, é certo, ou quem sabe as duas coisas.
"Os enfermeiros navegadores são responsáveis por coordenar a jornada do paciente, desde o momento do diagnóstico até o fim dos tratamentos e início do seguimento" — esclareceu logo a Larissa. Ou seja: eles são os monitores do paciente, os acompanhantes, os caras que focam no conjunto da trajetória, passo a passo dela, para garantir conforto ao freguês e eficácia ao tratamento dele.
A nossa missão é acompanhar o paciente, pensando nas especificidades do seu caso e das necessidades que ele tenha. Procuramos identificar as principais barreiras que ele tenha de enfrentar no seu percurso, para fazer com que ele seja o mais rápido possível e tenha o melhor resultado. A finalidade é garantir que todos os protocolos de atendimento sejam cumpridos.
Os pacientes "navegados" são apenas aqueles que têm diagnóstico confirmado de câncer. Os portadores de tumores benignos que o hospital trate não são monitorados. Há também alguns tumores malignos, de tratamento mais simples, que não requerem navegação. No câncer de mama, 50% dos casos são navegados, mas nos tumores cutâneos são apenas os raros e os melanomas invasivos. E em cabeça e pescoço, os de tireoide também não são acompanhados, porque o tratamento é curto, a extração do órgão, em geral, é suficiente para levar o paciente ao seguimento, sem necessidade de quimio ou radioterapia.
Os navegadores monitoram o prontuário do paciente, procurando antever problemas ou necessidades que ele possa ter nos procedimentos agendados. Além do atendimento presencial, ele é acompanhado remotamente de forma constante, via e-mail. Em geral, são os médicos que encaminham o paciente à Navegação, mas se isso não acontecer, a iniciativa pode ser da própria Enfermagem. Como a Navegação monitora os prontuários, pode identificar alguém que necessite dela e cola na pessoa.
Em fevereiro deste ano, 844 pacientes foram atendidos presencialmente e ocorreram 3.341 contatos remotos para o navegador saber como eles estavam e conversar sobre o que viria em seguida. Mais de 10 mil pacientes foram navegados desde 2017. E eu lamento não ter sido um deles.
Lamento porque o navegador funciona como um elo de ligação entre o paciente e o hospital, algo que sempre desejei e cobro muito nas reuniões do Conselho Consultivo de Pacientes e Acompanhantes. "A gente acaba sendo o ponto focal de apoio do paciente", diz Larissa. "É a nós que ele procura primeiramente, para tirar dúvidas e resolver problemas. Quando não podemos resolver as dúvidas clínicas, perguntamos ao setor competente e respondemos a ele".
Um problema comum dos pacientes que vivem no interior, por exemplo, é o agendamento de consultas e procedimentos. Eles querem vir a São Paulo para fazer várias coisas em poucos dias e não uma coisa de cada vez, durante várias semanas. "Nós não fazemos o agendamento, mas priorizamos as atividades para eles. Organizamos o que têm de fazer, a ordem em que devem cuidar do agendamento”, explica a coordenadora.
A Navegação do A.C.Camargo também "exporta tecnologia". Oferece um curso de capacitação na atividade que já está na 4ª edição, este ano com 76 inscritos. É aberto a qualquer pessoa interessada, mas atende especialmente enfermeiros e outros profissionais de saúde e já formou mais de 300 navegadores. Agora a área se prepara para oferecer serviços de consultoria. Aguarda o sinal verde da instituição, para gerar recursos capacitando outras instituições médicas na sua especialidade.
Larissa entende bem o grupo diverso de seres humanos que nós somos, porque lida conosco no dia a dia. "A grande maioria dos pacientes é disciplinada, cumpre os tratamentos e tem uma boa comunicação com a Navegação. Mas também há os que discordam das condutas, os que duvidam e perguntam, os que reclamam. Há de tudo."
Essa moleza do monitoramento, como tudo que é bom na vida, infelizmente tem um ponto final. "Quando o paciente termina o tratamento, parabenizamos, damos a nossa 'alta' a ele e orientamos sobre como proceder no seguimento. A partir desse momento, a navegação passa a ser apenas remota".
Larissa resume o sentido da atividade que coordena: "A navegação vem para somar no processo de educação e orientação em saúde. Ela identifica as necessidades e organiza a jornada do paciente, para facilitar a vida dele e o serviço do hospital".
Ou seja: navega preciso, nos dois sentidos da palavra. O que é bom em dobro.
Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje, atua como consultor de comunicação.
