Pesquisa identifica características incomuns no câncer de tireoide mais frequente
Pesquisa identifica características incomuns no câncer de tireoide mais frequente
O câncer papilífero de tireoide é o mais comum dos tumores de cabeça e pescoço e o mais frequente da tireoide, somando 90% dos casos. Ele costuma ser indolente, isto é, ter progressão lenta, e sua incidência vem crescendo em vários países, não se sabe ao certo se por causa da maior atenção dos médicos em geral ao diagnóstico precoce ou se a doença está mesmo se tornando mais comum.
Até hoje, buscam-se respostas para entender a causa desse tipo de câncer de tireoide e por que, em alguns casos, a doença, que costuma ter excelente prognóstico, revela-se agressiva, com invasão linfática e vascular, metástases distantes e recorrência.
"Se pudéssemos identificar quais genes e mutações tornam alguns mais agressivos, com evolução ruim, poderíamos já no primeiro momento fazer um acompanhamento mais frequente desses pacientes já tratados e, posteriormente, avaliar a utilização de novas estratégias de tratamento", afirma Dr. Luiz Paulo Kowalski, nosso Diretor do Departamento de Cabeça e Pescoço e um dos pesquisadores que assina o estudo "Integrated data analysis reveals potential drivers and pathways disrupted by DNA methylation in papillary thyroid carcinomas", publicado na Clinical Epigenetics.
Além do A.C.Camargo, participaram do estudo a Faculdade de Medicina da Unesp, de Botucatu, a International Agency for Researh on Cancer, de Lyon, França, e a University of Southern Denmark.
Esse estudo envolveu 41 amostras de nosso banco de tumores de pacientes com câncer papilífero de tireoide, em que a alteração (mutação) mais comum é em um gene chamado BRAF, que tem a receita para fazer uma proteína chamada B-RAF, que, por sua vez, comanda a divisão (proliferação) celular.
Nesse tipo de câncer de tireoide, o BRAF tem uma mutação na posição 1799 da série de letras do DNA (A de adenina, T de timina, C de citosina e G de guanina), em que um T é trocado por um A, como se fosse um erro de digitação. Como resultado, há um erro na "receita" para fazer sua proteína e essa proteína anormal faz com que a célula receba ordem para se multiplicar.
"Essa mutação sozinha não explica por que alguns tumores papilíferos são indolentes e outros são agressivos, mas é um gene promissor para estudos como o nosso, em que o objetivo não era buscar apenas associações para prognóstico da doença, mas estudar perfis de metilação", conta o biólogo Mateus Camargo Barros Filho, do Centro Internacional de Pesquisa (CIPE).
Metilação é a ligação de um grupo metil (-CH3) a uma citosina do DNA. Se isso ocorre na região do gene chamada de promotora, esse gene é desligado, ou seja, não produz a proteína. "Nos tumores, o mais comum é ganho de metilação na região dos promotores, ou seja, um gene que deveria funcionar passa a não funcionar, mas no caso desse câncer de tireoide o que mais vimos foram regiões do DNA distantes dos promotores e em regiões entre genes, mas que podem atuar sobre a regulação deles, com perda de metilação", explica o biólogo. "Nós ainda não temos dados para associar esses achados a um melhor ou pior prognóstico, nem saber quantos genes essas alterações da metilação influenciam, mas mapeamos uma característica incomum que pode apontar novos alvos de estudo", finaliza o especialista.
