Recursos disponíveis para tratamento do câncer influenciam na definição de prioridades médicas
Recursos disponíveis para tratamento do câncer influenciam na definição de prioridades médicas
Artigo publicado por Luiz Paulo Kowalski, head do Núcleo de Cabeça e Pescoço do A.C.Camargo, traz os principais dilemas vividos em grande parte do Brasil e do mundo
Para fazer o tratamento contra um câncer de forma ideal é preciso ter acesso a uma instituição de saúde que conte com todos os recursos humanos, físicos e financeiros. Porém, essa não é a realidade de grande parte do Brasil e de países em desenvolvimento. Nesses casos, a definição de prioridades de pacientes e de tratamentos deixam o médico sob pressão para obter o melhor resultado mesmo com poucos recursos, expondo esses profissionais a dilemas éticos diários.
No artigo Priority Setting in Head and Neck Oncology in Low-Resource Environments (Definições de Prioridades em Oncologia de Cabeça e Pescoço em Ambientes com Poucos Recursos), Luiz Paulo Kowalski, head do Núcleo de Cabeça e Pescoço do A.C.Camargo Cancer Center, e Alvaro Sanabria, da Universidad de Antioquia (Colômbia), abordam diversos pontos que são críticos para o tratamento em ambientes com poucos recursos. Um trabalho publicado no periódico Current Opinion in Otolaryngology & Head and Neck Surgery.
O acesso ao tratamento é um dos pontos. Em cabeça e pescoço, por exemplo, o tratamento pode ser dividido em três etapas: cirurgia, terapia sistêmica (quimioterapia, terapia-alvo e imunoterapia) e radioterapia. Em grande parte das instituições com poucos recursos, médicos e pacientes terão acesso, muitas vezes, a apenas uma ou duas possibilidades terapêuticas.
O acesso ao tratamento também pode esbarrar na distância geográfica e na “toxicidade financeira” que causa no orçamento familiar. Muitas vezes, o paciente demora horas para chegar ao local e o comprometimento do orçamento familiar pode afetar 48% das famílias, com um risco cinco vezes maior de abandono do tratamento. A cobertura das operadoras de saúde é outro fator a ser considerado, pois alguns planos oferecem quantidade limitada de serviços.
“Se o tratamento for finalmente aprovado, surgem dificuldades para agendamento de exames, por exemplo. Os tumores mais avançados necessitam de tratamento urgente, com exames laboratoriais e de imagem pré-operatórios para avaliação clínica e de estadiamento. Atrasos nesses exames têm como consequência o início tardio do tratamento, o que ocorre em quase 80% dos pacientes e diminui sua sobrevida”, explica o doutor Luiz Paulo Kowalski.
O médico também afirma que o tratamento de câncer de cabeça e pescoço é muito caro em relação aos materiais e dispositivos utilizados, e necessita de profissionais especializados. Em instituições menos preparadas, o médico tem de lidar com a escassez de profissionais e recursos e decidir o que é prioritário para completar o tratamento.
“A maioria das diretrizes e protocolos de tratamento vem de países desenvolvidos e com recursos. A adaptação dessas diretrizes para ambientes com poucos recursos é necessária para oferecer o melhor tratamento, sem comprometer a estabilidade e a sobrevivência dos sistemas de saúde. Dessa forma, também se torna essencial investir em disseminação do conhecimento, educação e prevenção, para que a população saiba reconhecer precocemente os sintomas da doença e buscar tratamento enquanto ainda é cedo, quando as possibilidades são maiores, mesmo diante de um cenário adverso”, finaliza o doutor Kowalski.
