Tsunami de solidariedade
Tsunami de solidariedade
Quem já está rodando o sistema operacional na versão 7.0, como eu, cansou de ouvir na vida uma frase lendária: O mineiro só é solidário no câncer. É lendária porque teria sido formulada pelo escritor mineiro Otto Lara Resende, coisa que ele sempre negou. E é lendária também porque é daquelas frases que se destacam do contexto em que surgiram e eternizam-se por si mesmas. No caso, o contexto foi a peça teatral "Bonitinha Mas Ordinária", do dramaturgo e cronista Nélson Rodrigues, encenada pela primeira vez em 1962, no Rio de Janeiro. Um personagem cita a frase, dizendo que é de Otto, e toda a história gira em torno dela — tão sugestiva e polêmica ela é.
Bem, esta não é uma coluna literária nem teatral, e também não é o caso de discutir aqui se a frase refere-se somente aos mineiros, ou se é somente no câncer alheio que a solidariedade humana aparece mesmo. Mas o que posso garantir, por experiência, a quem está iniciando a sua trajetória oncológica, é que essa doença cria uma impressionante corrente de solidariedade em torno da gente. Um campo magnético de muita força, com uma enorme carga positiva de amor, apoio e conforto. Ele funciona como uma couraça protetora, que nos ajuda a enfrentar o medo e os desafios do tratamento. E se há algo de muito bom no infortúnio que vivemos, é exatamente a sorte grande da solidariedade.
Eu fiquei impressionado com a onda solidária que inundou a minha praia, quando tive o câncer. Era muito ativo nas redes sociais, à época, e sumi por um bom tempo, consumido pelo impacto do diagnóstico, os preparativos da cirurgia, a internação de 17 dias, uma infecção na área operada e nova internação de mais uma semana. Quando voltei para casa, escrevi um depoimento emotivo no Facebook, compartilhei geral e acho que peguei na veia dos meus parentes e amigos. Aí veio a tsunami.
Recebi mais visitas num único mês do que nos dez anos anteriores da minha vida. Gente de todas as épocas, de todas as idades, de todos os perfis, que são importantes para mim e vice-versa, como demonstraram. Elas me trouxeram presentes com dedicatórias comoventes. Me deram testemunhos lindos da importância que eu nem sabia que tinha para elas.
Me abraçaram, me beijaram, me enlaçaram as mãos, fizeram cafuné, me deram tanto afeto quanto tomei de Dipirona no hospital. E foi igualzinho no mundo virtual. Choveu mensagens repletas de amor, de reconhecimento, de incentivo, nas redes, no email, no WhatsApp, no Messenger, no SMS. Mal tive tempo de pensar nos desconfortos da quimio e da radioterapia, que encarei logo depois da alta na internação. Fui engolido pela agenda da solidariedade.
Faz diferença para o convalescente essa torrente de afetividade? Eu acho que faz toda. A começar do cuidado carinhoso dos enfermeiros e atendentes, quase sempre impecável no A.C.Camargo, e do abraço forte que você recebe do círculo familiar mais íntimo: cônjuge, filhos, netos, noras e genros. Os meus deram um twist triplo carpado na rotina diária e fizeram revezamento para não me deixar nenhuma noite sozinho no hospital. Mimaram o cidadão aqui de todas as formas imagináveis.
Quando saí, o círculo íntimo virou muitos, progressivos, como aqueles da pedra atirada no lago. Senti como se eu virasse um ímã, pulsando magnetismo em todas as direções e atraindo energia afetiva. Que se somou à energia cerebral dos procedimentos médicos, à bioquímica da medicação, à radioativa dos tratamentos, e me deixou pronto para viagem, para recomeçar a vida, três meses depois de operar o câncer.
O mineiro é solidário no câncer, sim. O paulista também, o brasileiro, o mundo inteiro. Onde há algum senso de humanidade no planeta, a solidariedade aflora em torno dessa doença, certamente de muitas outras também, mas desta em particular. A solidariedade, por si só, não é capaz de controlar o câncer, todos sabem. Mas produz um estado de espírito que torna mais suportável e mais eficaz o tratamento. Ela faz o oncológico menos doente — e muito, muito mais feliz.
Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.
